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Ponce e a canção popular

(Texto original de Manuel Ponce, publicado em 1917. Tradução: Bruno Madeira)

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“A canção popular é a manifestação melodiosa da alma de um povo. O povo canta porque precisa dessa estranha forma de expressão para externar seus sentimentos mais íntimos. É a explosão da alma popular que sofre e cala, e que não faz uso das palavras unicamente, porque só a música pode interpretar suas emoções mais escondidas. Por isso, a música é a companheira mais antiga e mais doce da humanidade.

Mas nem todas as classes sociais puderam expressar suas emoções musicalmente. Parece que o destino, que privou tantos deserdados das comodidades e prazeres que proporciona a riqueza, dotou esses mesmos desamparados da fortuna de um sentido musical extraordinário e de um sentimento pouco comum, do que carecem, em geral, os que formam a classe aristocrática.

Por isso a canção é produto genuíno do povo. Nunca teve sua origem nos salões dourados e deslumbrantes dos magnatas, não surgiu jamais de uma soirée aristocrática. A canção popular nasceu nas humildes cabanas ou nas modestas habitações dos necessitados. Não poderia ser a expressão do sofrimento de um poderoso, porque os sofrimentos dos poderosos se evaporam nas bolhas do champagne ou se esquecem na corrida louca de um automóvel… Não poderia ser tampouco a expressão do amor de um burguês, porque o amor dos burgueses se contenta e se assossega com uma valsa de opereta vienense ou se exalta com o ritmo vulgar de um cake walk americano.

A canção popular contém todo o sofrimento, a paixão, o amor, o zelo, a esperança, a desilusão, as lembranças, as tristezas e as fugazes alegrias dessa classe social condenada ao trabalho duro e a indiferença da classe dominante.

A canção popular não poderia nascer depois de um chá das cinco ou de uma partida de tênis, não poderia surgir dos lábios pintados de uma senhorita da sociedade. É simples como as florzinhas do campo, dolente como a vida do povo, doce e suave como um santo entardecer; leva em sua melodia as visões de felicidade e os delírios dessas pobres pequenas almas que passam pelo mundo pela via dolorosa que o destino implacável marcou para elas.”