Por que eu estudaria mais escalas se eu pudesse fazer tudo de novo?

(Texto original do Dr. Noa Kageyama – Why I’d Spend a Lot More Time Practicing Scales If I Could Do It All Over Again – Tradução: Bruno Madeira)

escalas Por que eu estudaria mais escalas se eu pudesse fazer tudo de novo?

Como todo bom estudante, eu obedientemente (apesar da má vontade) pratiquei minhas escalas desde pequeno.

É claro, uma vez que eu já tinha idade suficiente para praticar sem supervisão, eu alegremente evitava escalas sempre que podia. Assim como tomar minhas vitaminas, havia algo nas escalas que eu sabia que seria bom para mim, mas eu não sabia exatamente o quê.

Foi depois dos meus 20 anos que as luzes se acenderam e eu descobri por que eu deveria estar praticando escalas desde sempre.

Mas e aí, por que vale a pena gastar nosso tempo com escalas e estudos?

Uau…

Em um verão há muitos anos atrás, eu passei algumas semanas em um workshop de música de câmara no qual a violoncelista Natalia Gutman era uma das supervisoras.

Um dia ela deu uma masterclass para os violoncelistas, e em certo momento tocou algo que fez com que todos nós simplesmente sorríssemos e balançássemos as cabeças em admiração.

O que foi que ela fez?

Ela tocou uma escala.

Ascendente. Descendente. Arpejos. Uma nota para uma arcada. Oito. Dezesseis. Eu acho que ela até tocou a danada da escala completa (ascendente e descendente) com uma só arcada.

Qualquer um consegue tocar uma escala. Mas tocar sem esforço e com esse tipo de facilidade que ela demonstrou, com arcadas tão precisas, mas ao mesmo tempo orgânicas e fluidas, controle, regularidade, suavidade, sem mencionar no som puro e brilhante, afinação e deslocamentos limpos… Uau…

Isso nos deixou sem palavras.

Escalas podem ser a sequência de sons mais básica que os músicos tocam, mas observar o domínio dos fundamentos que tem um grande artista foi realmente algo para se admirar.

Pareceu para mim que talvez eu pudesse mandar ver em um Capricho de Paganini especialmente difícil , mas eu não conseguiria chegar perto daquele tipo de execução de uma escala. Não importava o quanto eu queria negar a importância de escalas naquele momento, eu finalmente percebi por que as escalas eram tão importantes e valiosas.

Por que estudar escalas?

Percebi que escalas não são apenas para conseguirmos nos adequar ao andamento. Elas são uma sala de testes. Um laboratório ou ambiente controlado ideal para desenvolver os blocos fundamentais da nossa técnica. Deslocamentos suaves. Velocidade de arcada, ponto de contato, distribuição do arco. Qualidade e conceito de som. E muito, muito mais.

É uma oportunidade de ignorar as dúzias de outras variáveis que nós encontraríamos em uma peça de música e focar em dominar apenas um aspecto de nossa técnica isoladamente. Então ir adicionando os outros, um de cada vez, para ver como eles mudam as coisas. Assim nós podemos resolver e experimentar os mínimos detalhes e verdadeiramente dominar os aspectos fundamentais.

É como hoje em dia quando algumas pessoas recomendam ensinar crianças a andar de bicicleta removendo os pedais, para que elas possam desenvolver o equilíbrio primeiro. Aí, quando elas tiverem descoberto como resolver a parte do equilíbrio, a ideia é colocar os pedais de volta para que elas possam treinar a manutenção do equilíbrio enquanto pedalam.

Seja experimentando pressões do dedo, ponto de contato ou quanta crina do arco usar,  o objetivo é menos tocar a escala perfeitamente e mais explorar, testar hipóteses e construir uma caixa de ferramentas de habilidades fundamentais – ferramentas que poderemos usar em qualquer combinação única de exigências que encontremos no repertório.

Os fundamentos são entediantes? À primeira vista, talvez, mas é possível ser realmente grande sem um sólido entendimento das habilidades fundamentais?

O “Grande Fundamental”

Tim Duncan é geralmente classificado como um dos mais “entediantes” jogadores da NBA. Porém, com cinco campeonatos, 14 aparições no All-Star, muitos prêmios e mais, ele é indiscutivelmente um dos grandes jogadores de todos os tempos.

Apelidado de “Grande Fundamental” por Shaquille O’Neal, ele também é tido amplamente como um dos jogadores mais consistentes da liga – uma característica definidora do seu jogo  que muitos consideram responsável pelo invejável e contínuo sucesso em sua carreira que já dura 17 anos.

Assim como dizer “o diabo está nos detalhes”, é nas pequenas coisas que não são mostradas pelos holofotes, mas que são somadas no decorrer de um jogo, temporada e temporadas, que estão frequentemente as diferenças entre ganhar e perder.

A prova do ovo

Toda vez que meus pais iam em um novo restaurante japonês, minha mãe sempre pedia um prato feito com ovo – tipicamente o tamagoyaki.

Ela dizia que esse era o teste de um bom chef e que você poderia frequentemente dizer se o restaurante era de qualidade ou não baseado nesse único prato.

Ovos doces sempre foram meio esquisitos para mim, então eu acreditava na palavra dela, mas parece que isso é uma coisa real – não somente algo que minha mãe inventou.

Dizem que o famoso chef Wolfgang Puck também testa chefs com a “prova do ovo”, percebendo que muitos chefs são capazes de preparar pratos chiques com ingredientes exóticos em alto nível, mas tropeçam em um simples ovo se eles negligenciaram os fundamentos.

Há também essa emocionante cena no filme Jiro Dreams of Sushi, na qual um aprendiz conta ter gastado meses tentando cozinhar ovos para satisfação do seu mestre. Ele conta como levou mais de 200 tentativas para conseguir fazer realmente certo.

Tome uma atitude

E então? Você consegue passar na prova do ovo no seu instrumento? Ou na prova da escala, se houvesse?

O que você precisaria fazer para passar sem dificuldade nenhuma?

O resumo de uma frase

“O que as pessoas não percebem é que profissionais são sensacionais por causa dos fundamentais.” – Barry Larkin, jogador de beisebol, 12 vezes escolhido para o time All-Star da MLB, melhor jogador de 1995 e campeão mundial em 1990.

2 comentários sobre “Por que eu estudaria mais escalas se eu pudesse fazer tudo de novo?

  1. Boa tarde.
    Obrigado pelo Texto, muito bom, mas pq será que é tão dificil ficar fazendo escala. Vou ter que colocar mais disciplina. Descobri esse site agora, se tiver algumas escalas pra colocar agradeço.

  2. Olá João, que bom que o texto foi útil pra você! Não acho que seja tão difícil “ficar fazendo escala”, desde que você saiba como estudá-las de uma maneira produtiva. Vou dar um depoimento sobre minha prática atual, quem sabe pode ser interessante para você também.

    Nas minhas sessões de estudo, eu sempre começo com elas, faço de 5 a 10 minutos para me aquecer. Primeiro alguma cromática em uma posição confortável (5ª ou 7ª), pra não forçar muito a abertura dos dedos. Depois vou pra alguns modelos que tenho na cabeça (do Caderno nº. 1 do Carlevaro – Dó Maior, Ré Maior, Sol Maior, Mi Menor e Lá Menor). Alterno digitações de mão direita, articulações, acentuações, dinâmicas, toque apoyando e tirando, e ritmos. Não faço tudo isso num mesmo dia, mas sei que tenho essas possibilidades para alternar de um dia para o outro.

    Como o Kageyama diz no texto, escalas são ambientes controlados ideais, então aproveite para prestar detalhada atenção nos traslados, na posição longitudinal da mão e na coordenação entre as mãos.

    Tenho achado excelente fazer dessa maneira, não acho cansativo pela variedade de coisas pra trabalhar e o resultado tem sido ótimo! Desde quando comecei a incluir um estudo diário de escalas na minha rotina, sinto uma consistência técnica muito maior, principalmente na mão esquerda.

    Bons estudos!
    Bruno

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