Por que praticar distraído é importante (às vezes)

(Texto original do Dr. Noa Kageyama – Why Practicing While Distracted Is Actually Very Important (Sometimes). Tradução: Bruno Madeira)

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Como qualquer outra criança, eu tive muitos momentos nos quais eu queria poder praticar enquanto estivesse lendo um livro ou assistindo TV. Como quando ouvimos música para passar o tempo enquanto estamos no carro, eu pensei que ia ser incrível ser capaz de simplesmente mover meus dedos enquanto estivesse engajado em outra atividade mais divertida, e ainda assim ter progresso.

Eu tentei (e falhei em) fazer isso funcionar e estou certo de não ser o único que tentou ser multi-tarefas dessa maneira.

De fato, praticar enquanto se está distraído é quase universalmente visto como um grande “não”.

Mas é realmente tão ruim?

A resposta intuitiva é “sim”, mas um estudo recente sugere que a resposta não é tão clara como se pode pensar.

Praticar distraído contra praticar sem distrações?

Pesquisadores na Brown University estavam curiosos para testar a hipótese de que praticar distraído durante a aprendizagem levaria a performances piores. Então eles inventaram um teste para ver o que aconteceria quando indivíduos aprendiam uma tarefa motora totalmente focados nela e o que aconteceria quando eles precisavam aprender a tarefa enquanto estavam distraídos.

Eles fizeram 48 voluntários praticarem uma tarefa motora simples que envolvia usar uma caneta em um touchpad para arrastar um cursor até um alvo numa tela de computador.

A tarefa começou fácil, mas depois de 40 tentativas, o computador rotacionava os controles em 45 graus, fazendo com que o participante precisasse ajustar seus movimentos no touchpad em 45 graus para acertar os alvos desejados. Mais ou menos como o ajuste por conta do terreno em uma tacada curta de golfe, no qual ao invés de fazer a tacada em linha reta até o buraco, é necessário fazê-la em um ângulo para que a bola termine percorrendo uma trajetória reta.

Na medida que os participantes lutavam para se ajustar à tarefa motora agora mais desafiadora e direcionar o cursor ao alvo correto, foi pedido para alguns contarem certos símbolos que apareciam em suas telas. Outros participantes viam os símbolos aparecendo, mas foi pedido para que os ignorassem.

Depois de 160 tentativas, foi pedido para que eles fizessem mais 80 tentativas sem a rotação (para permitir alguma dose de esquecimento e tirá-los um pouco do ritmo – tipo quando técnicos de futebol americano pedem tempo para “resfriar” o artilheiro antes que ele tente fazer o field goal).

Por fim, foi a hora de um teste para ver quanto do treinamento foi fixado. O computador rotacionou novamente os 45 graus e os participantes tiveram 80 chances para acertar os alvos.

Um grupo de participantes nunca precisou lidar com os símbolos – nem durante o treinamento, nem durante o teste final.

Outro grupo de participantes sempre precisou lidar com a tarefa distratora de contar os símbolos – tanto durante o treinamento, quanto durante o teste.

E houve alguns grupos que tiveram que lidar com as distrações no treinamento ou no teste, mas não ambos.

Quem foi melhor?

Intuitivamente, você poderia pensar que o grupo que nunca teve que lidar com as distrações se sairia melhor, seguido talvez pelo grupo que pôde treinar em paz, mas testado com as distrações.

Porém o que aconteceu foi que o grupo que nunca lidou com as distrações e o grupo que sempre lidou com elas na verdade tiveram quase o mesmo resultado.

Foram os grupos do “ou” que tiveram dificuldades. Surpreendentemente, para aqueles que aprenderam a tarefa enquanto lidavam com as distrações, tirar as distrações durante o teste fez com que os resultados piorassem (e vice-versa).

Os pesquisadores fizeram um estudo posterior para cavar um pouco mais fundo e ajustaram-no para que os participantes tivessem que lidar com uma distração diferente durante o teste, em relação à que encontraram no treinamento.

Os resultados foram os mesmos, sugerindo que a natureza das distrações pode ser menos importante do que a presença delas. Não importou se as distrações durante o treinamento e teste foram as mesmas ou não. Importou apenas que as distrações estavam presentes (ou não) tanto no treinamento quanto no teste.

Tome uma atitude

E aí, o que isso tudo significa?

Eu não acho que isso seja um convite para praticar ou fazer aquecimento enquanto se assiste TV ou se usa a internet.

É sobre praticar estrategicamente com e sem distrações.

Por exemplo, nós não queremos estar tão acostumados a praticar em completo silêncio e solidão, para que sejamos derrubados pelos barulhos do público quando entramos no palco.

Da mesma forma, não queremos estar tão acostumados em praticar em uma sala de estudos rodeada pelo som reconfortante (ou irritante) e contínuo vindo dos outros estudantes, para que o silêncio de uma plateia se torne um distrator.

2 comentários sobre “Por que praticar distraído é importante (às vezes)

  1. Olá Bruno estou a iniciar no violão tem pouco meses, até criei um espaço Online para ensinar outras pessoas. Adorei seu Blog, é uma referência para mim. Por várias vezes fiz pesquisas no Google e seu blog foi recomendado para mim. Parabéns!

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